Talvez um dia eu também me liberte das paixões. Enquanto não acontecer, eu as dividirei obsessivamente com vocês


“Kit Gay”, machismo, intolerância? Chame o Pepe Mujica

Por Leonardo Sakamoto, em  blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br

O Senado do Uruguai aprovou, nesta quarta (17), lei que autoriza a interrupção da gravidez até a 12a semana para qualquer mulher, com exceção das vítimas de estupro – que terão duas semanas a mais para fazer a opção. O texto, que havia sido aprovado na Câmara dos Deputados, segue agora para a certa sanção presidencial de Pepe Mujica. A lei prevê que as interessadas em fazer o aborto recebam orientação sobre as consequências da interrupção da gravidez e as opções disponíveis e tenham um tempo de reflexão – tal como ocorre em alguns países onde o direito ao aborto é garantido. Por fim, a decisão final caberá apenas à mulher – como as coisas deveriam ser.

A oposição do país de 3,5 milhões de pessoas quer um plebiscito sobre o tema, correndo o risco de uma vexatória derrota, uma vez que a mídia apontou que a maioria da população é favorável à lei.

Ex-preso político na luta contra a ditadura uruguaia (1973-1985), Mujica  – que renegou o palácio presidencial e continuou morando em sua chácara na periferia de Montevidéu, usa um Fusca 1987, doa a maior parte de seu salário (ficando com menos de R$ 3 mil), tem ojeriza a gravatas e manteve um estilo sem (rufem os tambores) ostentação – caminha para aprovar outros dois projetos importantes.

O primeiro, que legaliza o casamento homoafetivo (a união civil já é reconhecida), deve ser aprovado até o final do ano. O outro prevê a legalização da maconha, com consumo controlado pelo Estado, que também seria responsável por sua produção e distribuição.

O que mostra, mais uma vez, que podemos até ganhar a discussão sobre quem tem um futebol mais bonito e eficiente mas, em termos de civilidade, o Brasil tem a aprender com o irmão do Sul.

Não há força suficiente entre os representantes políticos mais progressistas no Congresso Nacional brasileiro para ampliar a efetividade dos direitos humanos. Da mesma forma, as bancadas religiosas não conseguem juntar número o suficiente para um movimento contrário, ou seja, o de cancelar direitos já existentes. Sobra, então, para o Supremo Tribunal Federal.

Pesquisas com células-tronco embrionárias, união civil homoafetiva, direito a reivindicar a descriminalização das drogas, punir a violência contra a mulher mesmo sem a denúncia por parte desta foram decisões do Supremo que garantiram mais direitos. Não perguntei para o crucifixo que está à espreita no plenário do STF se todas essas decisões tomadas pelo ministro da corte demonstram um padrão. Mas há esperança que sim. No que pese que a sabatina de Teori Zavascki, novo indicado para ministro do STF, continuará pela via conservadora do ex-ocupante da vaga, Cezar Peluso. Afinal de contas, meia dúzia de autodeclarados representantes da Verdade (se é que a Verdade existe…) não podem decidir se o restante da população terá ou não dignidade.

Tenho inveja do país que consegue avançar através da decisão clara de seus representantes políticos em defesa da dignidade humana, como foi com o Uruguai.

Como já disse aqui, apesar da influência de grupos religiosos contrários à mudança, mais cedo ou mais tarde, leis serão alteradas no Brasil também, garantindo dignidade, combatendo o preconceito, ampliando as liberdades. O problema é que essa marcha está sendo bem lenta quando, em verdade, deveria correr rápida para dar tempo às pessoas que hoje vivem de desfrutarem uma nova realidade.

Ao defender o direito ao aborto (que é diferente da defesa do aborto em si, pois não há pessoa em sã consciência que ache a interrupção da gravidez uma coisa divertida de ser feita), o Estado uruguaio preocupa-se com as mortes e danos permanentes à saúde das mulheres pobres que realizam abortos ilegais. E abre caminho para a efetivação do direito da mulher ao seu próprio corpo. Que é dela, não do feto.

É extremamente salutar que todos os credos tenham liberdade de expressão e possam defender este ou aquele ponto de vista para os seus fiéis. Mas o Estado brasileiro, laico (sic), não pode se basear em argumentos religiosos para tomar decisões de saúde pública ou deixar de ampliar direitos.

A justificativa de que o embrião tem os mesmos direitos de uma cidadã nascida é, no mínimo, patético. Da mesma forma, dá vontade de fazer cafuné em quem defende que os heterossexuais sejam cidadãos de primeira classe em detrimento aos demais. Acho que só com muito carinho é  possível fazer um intolerante entender que não pode defender que suas crenças, físicas ou metafísicas, se sobreponham à dignidade dos outros.

Consciência não se aprende na escola, nem é reserva moral passada de pai para filho nas famílias. Mas sim na vivência comum na sociedade, na tentativa do conhecimento do outro, na busca por tolerar as diferenças. O Congresso Nacional daqui, que hoje está sentado em cima de propostas de mudança, é fruto do tecido social em que está inserido. Ou seja, eles somos nós. Para mudá-los, precisamos, mudar o lado de cá.

Começando por enterrar a idiotice de chamar um material contra a homofobia, seja ele produzido pela gestão federal do PT ou estadual do PSDB, de “Kit Gay”. Para isso, sugiro uma opção que poderia ser feita com a contribuição dos colegas jornalistas que cobrem campanhas eleitorais. Sim, eles mesmos, que são xingados, vilipendiados, ultrajados, vítimas de ironia e, apesar disso, respiram fundo e sorriem, tomando um chope claro ou escuro ao final do expediente.

Que tal lançarmos um “Kit Bom Senso” para ser distribuído nos comitês de candidatos que pregam a intolerância antes do início da campanha eleitoral? Explicaríamos, com o kit, que não é pregando a violência contra o semelhante que conseguiremos fortalecer a cidadania no Brasil. Pelo contrário, isso é exatamente o oposto que se espera de um gestor público. Se sobrarem unidades, sugiro que sigam também para o Congresso Nacional, para algumas denominações religiosas e, por que não, para o próprio governo federal que, diante de chiadeiras infantis de pseudo-lideranças, voltou atrás e não distribuiu o material contra a homofobia que havia produzido.

E se, mesmo assim, o pessoal continuar com essa esbórnia, chama o Mujica.

Original em: http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2012/10/18/contra-o-machismo-e-a-intolerancia-chame-o-mujica/



Escrito por Rogério Reis às 00h08
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O Google lembra-me de Herman Melville e sua "Moby Dick". "Chamai-me Ismael..." Já nem lembro quantas vezes reli as palavras que iniciam a jornada em busca da grande baleia branca. Livros sempre se tornam diferentes a cada vez que lemos. Experiências, gostos, preconceitos mudam ao longo dos anos. O que não muda é o prazer da leitura, o prazer da descoberta do mundo através das palavras.


Escrito por Rogério Reis às 01h22
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O julgamento do Século

Por Juca Kfoury, na em sua coluna da Folha de São Paulo de 14/10/2012

Condenação de Armstrong está para o esporte assim como a de Dirceu está para a política

LANCE ARMSTRONG, o ciclista sete vezes campeão da Volta da França, foi o herói de muita gente depois que venceu um câncer nos testículos e voltou a ganhar provas em cima de provas.

Seria o exemplo de superação mais impressionante da história do esporte, maior até que Ronaldo Fenômeno e suas quatro voltas por cima, embora uma coisa seja a gravidade da doença, e outra, o esforço para o atleta superar seguidas cirurgias no joelho.

Armstrong era o cara limpo numa atividade fartamente conhecida pelo uso de doping, tanto que dos nove últimos vencedores da Volta da França, a mais importante competição do ciclismo, nove deram positivo, três antes dele, dois depois.

O dossiê revelado nesta semana com mais de mil páginas e 26 depoimentos de ciclistas, 15 de sua equipe, não deixa pedal sobre pedal e tira definitivamente a máscara e o capacete de Armstrong.

Nosso herói era uma fraude e tão acostumado a mentir e a dissimular que mantém o discurso de que está sendo injustiçado e perseguido pelos organismos esportivos que o ajudaram a virar ídolo.

Parece às vezes até mesmo acreditar em seu discurso, convencido pela própria falsidade, situação amplamente conhecida nos consultórios psiquiátricos.

Tudo porque sempre soube que o mundo do ciclismo é assim mesmo, ou se dopa ou não se ganha, e ele optou por se dopar mais e melhor que os concorrentes, ao estabelecer uma rede sofisticada, e altamente lubrificada financeiramente, certo de que estaria protegido.

Pois seu mundo caiu.

José Dirceu, o líder estudantil que foi preso, virou guerrilheiro e mais poderoso ministro do governo Lula, simbolizou como poucos uma geração inteira -a de 1968.

E caiu na esparrela de usar as armas da burguesia contra a burguesia, comprá-la para fazer o bem. Convenceu-se disso a tal ponto que se deixou encantar pelas maravilhas da vida burguesa e virou um grande burguês, traído por raposa muito mais experiente nessa coisa de submundo.

Agora não falta gente boa para dizer que o STF mostrou sua face de defensora das elites, com quem tem compromissos de classe.

Pode ser, embora Joaquim Barbosa, escolhido por Lula, seu eleitor e de Dilma, de origem quase tão humilde como a do ex-presidente da República, definitivamente não caiba neste figurino.

Como não cabe reduzir um Celso de Mello a simplificação tamanha ou esquecer que a ministra Cármen Lúcia deixou claro que não condenava o passado de ninguém, mas o erro cometido.

E o erro está comprovado, não só pelo domínio do fato -algo que horroriza o juridicismo positivista, mas colabora com o jornalismo investigativo.

Sempre tive Armstrong como paradigma e sou da tal geração de 1968.

Razão pela qual ando macambúzio e me sentindo uma verdadeira besta.

Original em http://blogdojuca.uol.com.br/2012/10/o-julgamento-do-seculo/



Escrito por Rogério Reis às 22h01
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Escrito por Rogério Reis às 14h03
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